25/05/2016

Mr. Tangerine Man


      Nos meus verões da infância e da adolescência era corrente a temporada no litoral sul de Santa Catarina. Meu avô materno, advogado e empresário do ramo imobiliário, construiu uma vida naquela região espremida entre os contrafortes da Serra do Mar e o oceano, de Torres à Araranguá. O escritório e a residência do “gordo”, como carinhosamente o chamávamos, ficava em Sombrio, curiosa cidade emancipada de Araranguá no início do anos 50 e que, até os anos 90 formava a fronteira com o Rio Grande do Sul, de onde recebeu forte influência. Tanto que a bandeira oficial do município é a tradicional bandeira gaúcha com o brasão sombriense aplicado no centro.

      Naquele tempo, a base econômica era agrícola, concentrada no fumo e no arroz, mas já despontava sua vocação industrial calçadista e moveleira. À cidade localizada ao longo da BR-101, bem no meio do caminho entre Porto Alegre e Florianópolis, chegávamos em três horas de viagem em confortáveis ônibus da Santo Anjo ou da São Cristóvão. Não tinha mais do que cinco mil habitantes e duas avenidas calçadas – a principal, do trevo na BR-101, terminava na igreja, sentido oeste leste, e outra que cruzava no sentido norte sul. Tínhamos casa no Balneário Gaivotas, então um distrito da cidade. Mar aberto de águas tão limpas e transparentes quanto geladas, muito bom para o surfe que chegaria por lá em meados dos anos 70, trazido pelos filhos da jovem burguesia que se formava.

      Bem, eu e meu irmão frequentávamos a high society local, com a mesma desenvoltura que transitávamos no povão. Todavia, nossos melhores amigos estavam, mesmo, misturados neste povão onde nos sentíamos mais à vontade. Minha adolescência cruzou os anos 70 como um bólido veloz e instável, próprio da idade e também esteve por ali, em loucos verões com muito mar, muito sol, muito rock’n’roll e blues, muita bebida e maconha. Nossa juventude resistia como podia, contra tudo e contra todos. Nossas vidas eram bastiões ante o avanço do conservadorismo mais arcaico e o liberalismo mais destruidor. As famílias rodrigueanas e o estado repressor, representavam tudo o que não queríamos reproduzir. Eu e meu irmão travávamos nossas próprias batalhas para sobreviver e construir nossos espaços. Aquela década foi muito intensa. Viver em Porto Alegre estava ficando muito perigoso e nossa chance de experimentar a liberdade eram as escapadas para Sombrio e suas praias, verão e inverno, incluindo alguns feriados ao longo do ano.

      Minha memória está povoada de boas lembranças de Sombrio e os grandes amigos que fiz: Guda, Jair, Zé Jacques, Marcinha, Eládio, Sólon do Canto, Paulinho Vignali, Pasteur, Bani, Moacir, Ângela. Enfim, notáveis seres humanos que viverão para sempre no melhor lugar do meu coração.

      Ontem foi aniversário de 75 anos do Bob Dylan, lembrei da magia dos anos 70 e seus extremos, e minha memória resgatou a imagem de uma figura emblemática da cidade naquela época. O Salvão, batizado Sálvio Collares, sujeito folclórico e interessante, magrão alto, cabeludo, barbicha de rock star, um protótipo do Raul Seixas, educado e incapaz de fazer mal a alguém, um hippie maluco e ingênuo, que imaginava um mundo sem guerras, com muita música e pouca roupa, costumava circular pelas ruas tocando violão e cantando. Eu gostava muito de ver a simplicidade daquela criatura que tinha, na música, sua forma de interpretar o mundo e, ao mesmo tempo, aquietar sua alma.

      Um dia o Salvão estava no maior astral e cantava sua singular versão do clássico Mr. Tamborine Man, do mestre dos mestres, Bob Dylan. Num inglês absolutamente intraduzível, o intérprete cantava, acompanhado das impecáveis cifras do violão, e – a plenos pulmões, fazia chegar a mensagem ao seu público que o acompanhava num cortejo lisérgico-pacifista rua à fora: Hey! Mr. Tangerine Man, plant’a som for me... Lembrei disto e sorri para mim mesmo, pensando que o Bob Dylan precisaria saber como sua música toca a alma das pessoas, mesmo a quem não a entenda em uma só palavra.

      Se a vida é complexa, o ser humano - na sua pureza, é capaz de reduzi-la a algo mais entendível. Sem dúvida. E o importante mesmo, como naquela música da banda O Terço, é a vida. Que corre em nossas veias, a pulsar.