16/05/2015

E agora? Sem a Rádio Ipanema os Dinossauros serão extintos?

Eu estava num périplo pela Patagônia no final do mês passado quando fui atingido pela notícia ruim: Finalmente os executivos engravatados da indústria cultural conseguiram exterminar o último reduto independente e livre do "jabá" da música no Brasil. 

Confesso que fiquei chateado. Acompanho a Rádio Ipanema desde sua fundação em 1983. Apreciador da boa música, nestes 32 anos, tornei-me um legitimo "ipanêmico". Ouvinte contumaz e fã incondicional, neste tempo todo dei entrevistas, anunciei meus produtos, fiz parcerias e sempre fui absolutamente fiel. Meus filhos herdaram a "ipanemía", e também são ouvintes-fãs. Minha filha, estudante de jornalismo - nos últimos tempos estava aporrinhando minha paciência para eu conseguir um estágio para ela na Rádio Ipanema. Achou que enriqueceria o currículum vitae ter uma passagem na Rádio. Muitos estagiários que trabalharam comigo também estiveram por lá. 

A chamada da única rádio livre de besteiras e de "jabá" no território brasileiro apresentava atestado de DNA genuíno... "Rádio Ipanema - A Rádio Rock de Porto Alegre". Ao longo da sua história lançou bandas importantes no cenário do rock nacional como Replicantes, Cascaveletes, Planet Hemp, O Rappa, TNT, Ultramen dentre outras. Promoveu shows inesquecíveis como os do Metallica, do Red Hot Chili Peppers, Sublime, e Guns N' Roses. O Tim Maia e o Jorge Ben também tiveram seus shows pela Ipanema. No jornalismo, a "94.9" informava com humor e sarcasmo, sem nunca desrespeitar informantes e informados. Não teve medo de detonar a ditadura já nos seus últimos suspiros. Ouvi entrevistas maravilhosas. Lembro agora de uma, do Henfil, que me fez chorar de rir. Sensacionais sacadas publicitárias promoviam a Rádio, a cidade de Porto Alegre e davam vida e sabor à produtos, dentro de um nicho bem definido de mercado. Tiradas com bom humor traduziram tentativas de reeducação à maus hábitos porto-alegrenses como a chamada "Ipanema - limpe o cocô do seu cachorro FM" e outras genialidades. Mas eu gostava mesmo era da música da "94.9", e de ter a certeza de que estava sendo preservado pois para a "Rádio Ipanema, os dinossauros não foram extintos". E meu dial no carro, em casa e no trabalho era travado no mesmo lugar.

Mas, num determinado momento, algum destes executivos yuppies, engravatadinhos e calçando sapatos de cromo alemão, apareceu cagando regras e exibindo gráficos. Conheço bem este tipo de gente que nunca vendeu um livro da Barsa mas se apresenta cheio de diplomas tentando ensinar ao mundo o que ele mesmo não sabe. Aí, este energúmeno tenta dizer que tudo ali está errado, conforme as novas tendências do mercado, e que cultura e contracultura não são bons produtos no portfólio da rede de emissoras e coisa e tal. Assim, como se um sujeito fosse montar um restaurante vegano em Bagé e exigir índices de churrascaria. E este cara começa sufocando a Rádio mudando seu estilo, estuprando seu DNA e violentando sua alma. E as vendas não decolam. E o projeto de executivo espermatozóico precisa explicar para o alto comando e aos acionistas porque a reengenharia não deu certo. No marketing denominamos fenômenos como este de "síndrome do cavalo morto". O cavalo foi sacrificado e o executivo quer que ele ande. Nada mais patético, e nosso executivo - pressionado pela alta gestão, conferindo relatórios à quase dois mil quilômetros de distância, não conhece o mercado do sul e suas nuances e sincronias próprias. Demite-contrata-demite-contrata e não consegue resultados. Ora, ele é um executivo acostumado a ler orelhas de livro e resenhas de críticos literários, para não perder tempo, portanto não foi apresentado à dupla de mestres Kim-Mauborgne. Então ele não sabe que está pilotando um magnífico transatlântico num oceano azul. Mas ele insiste em misturar alhos e bugalhos e não vê que as planilhas analisadas estão corretas, mas não estão falando a verdade. E ele continua mirando a concorrência. Concorrência que não existe. A Rádio Ipanema é única, incomparável, não tem concorrentes. É o oceano azul da radiofonia. Case de sucesso. Objeto de análise e pesquisa. Seu público é único, homogêneo, típico, fiel e antigo. Amor antigo. Produto sob medida para um público sem medidas.

Pois os executivos de longa distância, modelo EAD, encriptados em suntuosos escritórios na paulicéia desvairada, só conhecem o mercado da guerra e do desmanche e não fazem prisioneiros - ou testemunhas. Mas eles acham que o Neto é comentarista esportivo e que o Milton Neves entende de futebol, o que se pode fazer? E logo a Rádio Ipanema será estuprada novamente, e a teremos ocupada pelas piadas homofóbicas, sexistas e racistas dos doutores e professores do futebol em 20 das 24 horas do dia. Logo teremos fascistas pregando violência sem parar em narrativas de crimes sanguinolentos ao vivo e outras pregações erráticas e de ódio. Em compensação, nossos ouvidos serão corrompidos por britadeiras do tipo "boquinha na garrafa".

E me resta agradecer ao Nilton Fernando Nilnews, Cagê Lisboa, Kátia Sumam, Nara Sarmento, Mary Mezzari, Alemão Vitor Hugo, Edu Santos, Júlio Reny, Mutuca, Tais, Ricardo Barão, Marcelo Scherer, Piá, Cláudio Dinamicofm, Sandro Moura, Mauro Borba e outra/o/s que não lembro agora, pelos maravilhosos momentos que me proporcionaram nestas três décadas. Desculpem a nós, ouvintes e fãs por não termos nos dado conta de que o mal chegou e se instalou travestido de  bonzinho e agora, como no poema do Maiakovski, "eles roubaram a última flor e destruíram o jardim. Nos tiraram a voz, e já não podemos fazer nada"...

Marcus Vinicius Anflor