04/04/2014

Sim, eu tenho Parkinson. E daí?

O impacto foi muito grande quando recebi a confirmação do diagnóstico. A primeira coisa que pensei foi "porque comigo"? O médico minimizou a situação como pode, diante da minha preocupação e espanto, mas consegui duas boas respostas para minhas dezenas de indagações: Primeiro, tive sorte em ter um diagnóstico muito cedo, o que possibilita maior controle sobre os efeitos do Parkinson. Em seguida, fiquei menos desconfortável com a garantia do médico de que é possível controlar o progresso do Parkinson, com medicação, esforço (fisioterapia) e muita força de vontade. 

Levei uns dias para entender. O "Dr.Google" informa muita coisa, mas o volume de bobagens é muito maior do que a sensatez. Nos primeiros meses eu tive um pouco de medo, afinal, meus filhos são adolescentes ainda e imagino que preciso ter mais uns quinze anos de vida útil para poder vê-los encaminhados. Junto com este medo, vem  um sentimento de vergonha porque penso em como vou ser visto por amigos e - principalmente, clientes, se me apresentar fragilizado, travado e trêmulo. Em seguida senti um pouco de raiva por ter sido "contemplado" com tamanha sorte. 

Hoje, transcorrido quase um ano do diagnóstico, observo que minha vida mudou sim, mudou bastante. Se, por um lado tenho que me concentrar mais nos movimentos, passei a ter a compania de coloridos e inseparáveis comprimidos e vou com mais frequência ao médico, também é correto afirmar que agreguei uma constelação de novas e variadas amizades. Novas porque, à medida em que fui procurando informações, passei a conhecer mais pessoas. Variadas, porque o Parkinson não escolhe o extrato social onde vai atacar, nem a cor da pele ou tampouco a orientação sexual. O Parkinson simplesmente se intromete em nossas vidas e fica para sempre. Aí nós precisamos cuidar dele diariamente e acomodá-lo em nossa agenda. A propósito, não é correta a afirmação de que o Parkinson só gosta de velhinhos. Ele também aprecia gente jovem e manifesta-se até em crianças e adolescentes.

Bem, mas o que é o Parkinson? Trata-se de um tipo de doença neurológica descoberta por James Parkinson (daí o nome) em 1817 e caracteriza-se por ser progressiva e degenerativa. Basicamente é uma anormalidade nos neurônios produtores de dopamina, que afeta a transmissão dos comandos, informações e impulsos do movimento provocando distúrbios na coordenação motora e equilíbrio. Manifesta-se de forma muito ampla e pode vir a provocar ansiedade e depressão. Cruzes!

Costuma-se dizer que o Parkinson é uma doença social. É verdade, porque está associada à fragilidade, ao equilíbrio, à sintonia fina, à demência. As pessoas tem medo. A sociedade, perfeita como ela é, constituída somente de gente bonita e atlética, não aprecia ver pessoas com constantes tremores, manquitolas ou com dificuldade para agarrar objetos. Estes atletas impacientes são intolerantes com gente muito lenta que os atrapalha nos corredores de supermercados ou que demoram para entrar e sair de elevadores. A parte boa é que o Parkinson pode ser enfrentado. Não é uma tarefa fácil, mas que graça teria a vida sem um pouco de ação, não é?  Utilizar medicação adequada, evitar a vida sedentária, comer corretamente, visitar o médico regularmente. Tudo isto eu já fazia antes, só que agora faço com mais concentração, com mais garra.

Tenho apoio total da minha família. A Gringa e meus filhotes estão "fechados" comigo. Algumas preciosas amizades estão sempre por perto, com gestos, palavras de incentivo, torcida. O neurologista, Dr. Guido Anicet é um sujeito fora de série - já no primeiro dia ele me garantiu que "iríamos empatar este jogo".
 
Nordic Walker - Lapex/Esef/Ufrgs
Fui selecionado e entrei para o Programa de Caminhadas para pessoas com Parkinson, do Laboratório de Pesquisa do Exercício da ESEF-UFRGS, que tem ajudado. Lá conheci a Nordic Walker e as Profas. Elren Passos e Natália Gomeñuka e o acadêmico Leandro Franzoni, além de uma especial e variada turma de "parkinsônios" como eu. Trocamos ideias, experiências e ajudamos uns aos outros. Me recuso a deixar de fazer o que gosto, mesmo que resulte em quebrar um copo ou prato vez ou outra. Fiquei sem dirigir um tempo, mas esforcei-me para voltar a fazê-lo.  Em breve volto a pedalar minha bike e retomo os passeios com o meu filho Lorenzo. Estou pensando até em adotar a Nordic Walker como atividade permanente em minha vida.

Com a Profa.Natália - Lapex/Esef/Ufrgs
As poucos, minha vida vai estabilizando e chegando muito perto do normal. Não posso deixar de agradecer ao pessoal da Ipanema Físio, principalmente à fisioterapeuta Adriane Pereira e ao fisiatra, Dr. Fábio, porque foram eles que investigaram e descobriram o que estava acontecendo comigo, proporcionando um diagnostico cedo e a tempo de colocar um freio no avanço da doença.

Hoje, 04 de Abril, é o Dia Nacional do Parkinson e inicia a Semana do Parkinson, promovida pela APARS (Associação de Parkinson do RGS). Decidi escrever este texto porque enfrentar o Parkinson com determinação melhora nossa condição de vida. Se o Parkinson assustou e impactou quando o descobri, ao lutar para "empatar este jogo" vou descobrindo novas oportunidades. Ser mais tolerante,  humano e solidário são algumas delas.